Do anonimato a idolatria: a Era Abel Ferreira no Palmeiras

Hugo Bourguignon

Hugo Bourguignon

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A chegada de Abel Ferreira ao Palmeiras marcou o início de uma nova Era no futebol brasieliro. Independentemente das opiniões sobre o homem, o português elevou o patamar do Verdão a se tornar o principal campeão do país na década. Isso não é opinião, os números falam por si só.

Copa Libertadores

O Alviverde é o único time brasileiro a levantar os troféus de todas as principais competições nacionais e continentais desde 2020 - quando o treinador chegou ao país. E isso tem um dedo dele. São nove títulos conquistados em pouco mais de três anos. Antes dele, o Palmeiras tinha levantado seis canecos no século XXI.

Só que antes de entender como um português de Penafiel, cidade com menos de 70 mil habitantes, atravessou o Oceano Atlântico em busca de sucesso e glórias, é preciso olhar para o lateral que terminou sua carreira devido a uma grave lesão.

A vida antes do Palmeiras

Como jogador, Abel passou longe de ter o mesmo destaque como treinador. Em 14 anos, o português defendeu apenas equipes de seu país, tendo seu auge no Sporting, onde se aposentou aos 34 anos por causa de uma séria lesão no joelho. Ele também não teve passagem pela seleção portuguesa.

Times Jogos Gols Titulos
Penafiel 67 4 -
Vitória de Guimarães 86 2 -
Braga 51 0 -
Sporting 182 6 Copas de Portugal (2)
Supercopas de Portugal (2)
Total 386 12  

Quando se olha para a quantidade de títulos conquistados, não há comparação: duas Copas de Portugal e duas Supercopas de Portugal. Só em sua primeira temporada pelo Verdão, Abel levantou uma Libertadores e uma Copa do Brasil.

E antes do sucesso apoteótico pelo Palmeiras, o treinador teve uma carreira tímida na Europa. É verdade que foram apenas cinco temporadas, tendo o Braga, de Portugal, e o PAOK, da Grécia, como times dirigidos. Só que a discrepância de sucesso entre os trabalhos é algo impressionante.

Times Jogos Vitórias Empates Derrotas
Braga 103 63 15 25
PAOK 57 31 16 10
Palmeiras 242 140 58 44
Total 402 234 89 79

Abel não conquistou títulos nem em Portugal nem na Grécia, e seu auge no Velho Continente foi justamente poucos dias antes de se apresentar ao Verdão. Ele eliminou o Benfica, de Jorge Jesus, na fase eliminatória da Champions League de 2020/21. E foi JJ quem “abriu portas” para a chegada de Abel Ferreira ao país…

Abel do Palmeiras

No dia 30 de outubro de 2020, Abel foi anunciado como treinador do Palmeiras. Três meses exatos depois, o Verdão era campeão da Libertadores. E isso era apenas o princípio de sua trajetória no Brasil, sendo dividida em três grandes tópicos: títulos, polêmicas e legado.

Quando se fala em troféus, não há o que discordar: desde que chegou, Abel é o treinador mais vitorioso do futebol brasileiro. Ele conquistou nove títulos em três anos. O número absoluto chama atenção, mas quando comparado com os rivais nacionais, se torna ainda mais impactante.

Temporada Título Jogos  Vitórias Empate Derrotas
2020 Copa do Brasil 6 5 1 0
2020 Libertadores 6 5 0 1
2021 Libertadores 13 9 3 1
2022 Recopa Sul-Americana 2 1 1 0
2022 Paulista 16 12 3 1
2022 Brasileiro 34 19 12 3
2023 Supercopa do Brasil 1 1 0 0
2023 Paulista 16 11 4 1
2023 Brasileiro 36 20 8 8
Total   130 83 32 15

Ignorando os títulos estaduais, Abel soma sete canecos. Nesse período, quem vem logo atrás é o Flamengo, com quatro, e o Atlético-MG, com três. Ou seja, ele sozinho tem a mesma quantidade de dois dos seus principais concorrentes no futebol brasileiro. Isso, claro, resultou em prêmios individuais, como técnico do ano da Libertadores de 2020 e 2021, além de ser o melhor treinador do Brasileirão 2022.

Diz o meme da internet que quando o trabalho é bem feito, a inveja é pesada. Não é possível afirmar que seja inveja, mas as polêmicas rondam o trabalho de Abel no país. Ao longo desses três anos, o técnico fez críticas à cultura de demissão do Brasil, ao calendário do futebol brasileiro, além de ter diversos problemas relativos às diferenças culturais e também conflitos, que geraram inúmeros cartões amarelos no período. Isso tudo somado à uma personalidade firme.

Os títulos somados à polêmicas resultaram no legado de Abel. Com uma filosofia focada em mantras, o treinador também desenvolveu um trabalho mental nos atletas em busca dos títulos pelo Palmeiras. Essa vertente de saúde mental gerou outro trabalho do comandante: o seu livro.

“Cabeça Fria, Coração Quente” conta os bastidores da comissão técnica do Verdão entre 2020 e 2022, quando a equipe disputou nove finais e ganhou seis títulos. O livro, inclusive, está disponível no Brasil, custando entre R$ 60 e 70.

E nesse período no clube, o treinador foi responsável por transformar jogadores em ídolos, e garotos em craques. O jeito do português com os atletas fez com que ele criasse um laço especial com dois jogadores que são parte da espinha dorsal do Palmeiras da década.

O primeiro é o zagueiro Gustavo Gómez. De quase certo no Boca Juniors a capitão da América pelo Verdão, o paraguaio foi o responsável por levantar as duas Taça Libertadores do clube no período.

E quem teve uma grande evolução com o português foi o meia Raphael Veiga. Palmeirense desde a infância, o armador é, inclusive, o maior artilheiro da Era Abel no clube, com 70 gols. Além de ser decisivo nas finais, Veiga ganhou status de jogador da seleção brasileira.

É o melhor técnico que tive, fez com que entendesse melhor o jogo, hoje estou em campo de forma mais leve. Antes era focado no resultado e dava pouca atenção ao processo. Fiquei um melhor jogador, entendendo todo esse peso que o Abel atribui na questão mental e emocional

 comentou Veiga em entrevista ao jornal O Jogo em janeiro de 2024.

Abel também tem boas valências quando o assunto são jóias. Destaque do Nottingham Forest na Premier League, Danilo foi um dos pilares do meio-campo palmeirense antes de brilhar na Inglaterra. Isso sem falar de Endrick, bicampeão brasileiro aos 17 anos e vendido ao todo poderoso Real Madrid por € 70 milhões.

Crise, família Palmeiras e legado

O momento de maior tensão de toda a relação entre Abel e Palmeiras foi no fim de 2023. Cada vez mais desgastado, o português recebeu uma oferta para ser o treinador mais bem pago do planeta. O Al Sadd, do Catar, fez uma proposta de € 20 milhões por ano mas, ao que parece, nem todo o dinheiro do mundo o tiraria do Verdão. Ele chegou a visitar os sauditas, mas optou por renovar com o Alviverde até 2025, recebendo o “modesto” salário de € 12 milhões por temporada.

Além da identificação com o clube, a família de Abel foi importante pilar para a ampliação do vínculo. Tanto sua esposa, Ana Xavier, quanto suas filhas, Maria Inês e Mariana, não queriam se mudar novamente, muito por estarem acostumadas com a vida na cidade de São Paulo. O Palmeiras e a vida no Brasil fazem parte de sua família agora.

Quando estão reunidas todas as condições, e estar em um lugar onde todo mundo te quer, onde você quer estar e onde sua família quer continuar, é sempre muito mais fácil tomar esse tipo de decisão

disse o treinador após renovar o contrato.

E assim caminha a Era Abel Ferreira. É verdade que 2024 começou com um vice-campeonato na Supercopa do Brasil mas, como um MightyTips expert, eu acredito que o português deverá seguir conquistando títulos, principalmente pela liberdade que tem dentro do Palmeiras para montar o elenco e mudar a rotina do clube. Abel caminha para ser um “Alex Ferguson” do Verdão.

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